02/04/2017

Metade - Oswaldo Montenegro



Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
Porque metade de mim é partida,
a outra metade é saudade

Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço,
a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que mereço
E que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso,
a outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia,
a outra metade é canção
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
e a outra metade também

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